“Eleições” na Venezuela

Eleições presidenciais do próximo domingo dividem o antichavismo entre a abstenção e queimar o último cartucho eleitoral para tentar tirar Maduro do poder

“Para votar na oposição devo votar em Falcón ou no pastor?”, pergunta Yaneth Casares numa fila para comprar comida em um supermercado de Caracas. Depois de ouvir a explicação de que a oposição se dividiu, que um grupo conclama à abstenção enquanto outro, minoritário, aderiu a Henri Falcón, e que as eleições não têm o respaldo da comunidade internacional, a mulher de 40 anos, desempregada, nascida e criada no bairro popular do Petare, com quatro filhos e cada vez mais dificuldades para alimentá-los, responde: “Continuo tão confusa quanto antes. Nenhum candidato me inspira confiança, mas acho que prefiro votar, e será nesse tal de Falcón. Quem dera acontecesse um milagre e as pessoas não continuassem apoiando a falta de vergonha deste Governo, do qual já estou cansada”.

Essa encruzilhada dividiu o eleitorado. Os principais institutos de pesquisa apontam uma participação um pouco acima de 50%, que poderia ser considerada baixa para uma eleição presidencial, mas suficiente para deixar Maduro em boa situação no meio de um processo fraudulento. Nos setores populares há uma maior disposição a votar, enquanto que na classe média, reduto da oposição, a abstenção ganha mais força.

Griselda Reyes é encarregada de procurar voluntários nos municípios mais opositores e de classe média-alta de Caracas – Baruta, Chacao e El Hatillo. A equipe que ela está montando irá fiscalizar os votos dados a Henri Falcón, respaldado por partidos minoritários de oposição, como o MAS, o Avanço Progressista e uma fração do COPEI. “Não milito em nenhum partido, mas gosto da proposta de Henri Falcón. A vida toda eu votei, exceto na Constituinte de Maduro, e sei que quanto maior é a abstenção, maior a chance de armação. Acho, além disso, que o voto é um direito nosso e a única ferramenta que temos para tirar este Governo.”

Para Reyes, a falta de respaldo da comunidade internacional não tira legitimidade de Maduro, pois o Governo continua mantendo relações comerciais com outros países e recentemente inclusive reatou relações diplomáticas que haviam sido rompidas. Ela reconhece que as condições não são as melhores, mas afirma que Falcón tem mais de 96% das mesas cobertas com fiscais e suplentes para cobrir eventuais faltas dos voluntários. O objetivo deles é denunciar três situações vistas como o principal risco: a instalação dos chamados pontos vermelhos de propaganda chavista que perturbem a votação, o voto assistido e a substituição de membros das mesas por aliados de Maduro.

“A classe média alta tinha muita relutância porque o candidato não cumpre as expectativas, porque foi chavista, por causa da fraude. Mas, à medida que os dias passarem, aceitarão a ideia de que não há uma proposta para depois de 20 de maio por parte do setor abstencionista. Muitos irão votar para tirar Maduro, não por Falcón.”

Protestos antes e depois de 20/5

Carlo Julio Rojas é ativista e membro da Frente Amplo pela Democracia, composta por integrantes da sociedade civil, sindicatos, universidades e Igreja, e que junto com a MUD e a organização Sou a Venezuela, de María Corina Machado, convocou a população a não participar da “farsa eleitoral”. Nesta semana, a Frente voltou a insistir na suspensão da eleição, como também fez o chamado Grupo de Lima. Rojas não critica quem vai votar, admitindo que nenhum dos lados da oposição – nem os abstencionistas nem os pró-voto – tem um itinerário claro para o futuro.

“Em 21 de maio nos veremos todos nas filas para comprar comida e nos protestos pela água, pela luz, contra a fome. Dá raiva. A situação crítica que estamos vivendo vai desencadear em uma eclosão social para a qual será necessária uma condução política por parte dos líderes da oposição, que precisam ir às ruas com o povo. É preciso protestar contra os problemas do povo. E sei que há medo, e olha que já fui preso duas vezes por protestar, mas a raiva precisa ser superada”, diz Rojas.

Os protestos decorrentes do descontentamento serão o estopim para tirar Maduro do poder, afirma Rojas. Em abril foram registrados quase 1.000 manifestações em todo o país. Elas não pararam neste mês, e ainda por cima o setor universitário iniciou paralisações nacionais escalonadas, protestando contra a precariedade salarial. O ativista diz que no domingo estará observando o processo para documentar a fraude. Outros setores do Frente convocaram a população a se dirigir às 12h às igrejas usando o boné com a bandeira venezuelana, um símbolo dos protestos.

Para Víctor Márquez, presidente da Associação de Professores da Universidade Central da Venezuela, a mais antiga instituição acadêmica do país, e um dos principais porta-vozes da Frente, o caminho depois de 20 de maio passa por desconsiderar Maduro como presidente e promover uma rebelião popular, que a seu ver incluiria a ativação do confuso artigo 333 da Constituição, segundo o qual todo cidadão é obrigado a restabelecer a vigência da Carta Magna e do Estado de Direito quando ameaçados.

“Não fazemos um chamado à abstenção, isso seria uma opção quando há uma eleição sob parâmetros normais. O que chamamos é a não convalidar a farsa eleitoral, pois aqui o cidadão não terá a possibilidade de escolher. O Governo quer usar o voto para se legitimar. Em 21 de maio as instituições precisam dar um passo à frente para desconsiderar o presidente. Devemos tomar a rua novamente, e há outras ações vinculadas com a desobediência civil, como o não pagamento de impostos, que também podem ser aplicadas.”

SEM GARANTIAS E COM O GOOGLE

Em 1º. de março, os candidatos Henri Falcón, Nicolás Maduro, Javier Bertucci e Reinaldo Quijada assinaram um acordo de garantias eleitorais para o pleito presidencial, com a intenção de reduzir a vantagem do candidato governista e oferecer um mínimo de controle sobre o processo organizado por um Conselho Nacional Eleitoral que é aliado do chavismo e foi acusado de fraude pela empresa operadora de urnas eletrônicas Smartmatic, depois do processo que deu origem à Assembleia Constituinte.

No processo, o próprio Falcón denunciou o favorecimento ao Governo e o descumprimento dos acordos. Maduro, em troca de votos, ofereceu “presentes”, na verdade bonificações em dinheiro, através da chamada carteirinha da pátria, entregues a mais de 12 milhões de venezuelanos – o principal e perigoso mecanismo de coação nas mãos do Governo. O presidente também tem feito pronunciamentos em rede nacional durante inaugurações de obras, como ocorreu recentemente no Hotel Humboldt, e usa recursos públicos e o logotipo de instituições na campanha. Javier Bertucci, o candidato evangélico que poderia tirar votos de Falcón, também denunciou que prefeitos governistas boicotaram sua campanha.

Nenhum dos candidatos reuniu multidões em comícios. A campanha termina nesta quinta-feira, após vários momentos incômodos ao longo do caminho. Maduro foi alvo de objetos atirados e recebeu vaias em suas caminhadas, por isso recorreu à presença virtual e inundou com propaganda as redes sociais, o YouTube e os sites de maior tráfego, usando a plataforma de publicidade Google Adwords, que nas últimas semanas teve uma movimentação frenética. Falcón distribuiu sardinhas em seus atos públicos e em alguns comícios e sua equipe usou cédulas de baixo valor, inúteis no atual processo hiperinflacionário, como papel picado, para atrair as pessoas. E Bertucci percorreu o país e os templos evangélicos dando sopa como brinde.

fonte: brasil.elpais

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Autor: redação
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