Trailer do filme Amor Pleno

Terrence Malick retrata altos e baixos de relacionamentos com sugestões visuais em “Amor Pleno”

Fiel ao título, “Amor Pleno”, de Terrence Malick, que estreia nesta sexta-feira (26) no Brasil, guarda algumas semelhanças com uma história de amor. A produção é densa, complexa, recheada de muitas sutilezas e talvez não muito fácil de ser compreendida em sua plenitude num primeiro momento.

Em vez de optar por fórmulas como cenas com começo, meio e fim, diálogos esclarecedores entre os personagens e indicadores claros de passagem de tempo, Malick parte de sugestões, lembrando seu filme anterior, “Árvore da Vida”, com o qual ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 2011. É através de gestos sutis, diálogos internos de cada um dos envolvidos (que não necessariamente têm a ver com a cena exibida) e muitos cortes que o cineasta constrói sua narrativa, onde os nomes dos personagens não são ditos, com algumas exceções.

No longa, Ben Affleck vive Neil, um americano que se apaixona pela francesa Marina (Olga Kurylenko) e decide trazê-la de Paris para os Estados Unidos. A relação entre os dois vai aos poucos ficando mais difícil, o que é ajudado em parte pela falta de adaptação da filha de Marina, Tatiana, ao estilo de vida americano. Quando as duas francesas voltam para a Europa, Neil tem um caso com Jane (Rachel McAdams). O padre Quintana (Javier Bardem) é consultado por Neil e Marina em momentos distintos, e apresenta ao espectador seus questionamentos a respeito de onde está Deus.

Malick é muito talentoso ao procurar a beleza em cenas simples do cotidiano e fazê-las revelar seu potencial dramático. A maioria delas mostra os personagens interagindo entre si com gestos carinhosos, com paisagens naturais ou ambos, e música clássica. A música, aliás, é um fator importante na fórmula de Malick. Sem ela, a combinação de frases curtas dos personagens, que exprimem seus conflitos internos, com essas passagens simples e belas não passaria tanto ao espectador a sensação de clímax e drama.

Com cortes rápidos, não é difícil sentir-se perdido entre cada um dos clímax, ou preferir atentar para um em detrimento de outro.  Os cotidianos distintos de Neil e Marina podem serem interpretados como motivos para o distanciamento entre os dois, mas nada disso está muito claro.

Ele é um funcionário encarregado de avaliar a contaminação do solo e da água de uma área residencial, num cotidiano que envolve questionar moradores sobre possíveis doenças e entrar em contato com uma dura realidade. Já Marina só perde o bom humor quando Neil parece rejeitá-la, está sempre dançando, pulando em cima da cama ou brincando com algum objeto, sem em nenhum momento dar qualquer indicação de que trabalha. Uma cena bastante breve em que Neil tira a mão do ombro de Marina quando esta tenta tocá-lo, indicando a crescente distância entre eles, pode facilmente passar despercebida.

O que acaba funcionando para que o público possa entender o que aconteceu é que, nesse em outros casos, as cenas se somam, e o desfecho fica mais claro. O espectador pode, além disso, preencher os vazios do que Malick não define, apenas sugere.

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Cena de “Amor Pleno” com Marina (Olga Kurylenko) e Neil (Ben Affleck). Com Malick, a natureza não só emociona, mas também colabora para a própria narrativa

Personagem à parte
A natureza é quase um personagem à parte no filme, assim como em “A Árvore da Vida”. Desde pradarias iluminadas com um sol poente a cenas de água corrente de um rio, a paisagem dá o tom do sentimento dos próprios personagens. Em quase todas as vezes nas quais Marina está pensando sobre seu atual status em relação a Neil, por exemplo, ela aparece correndo entre descampados, como se houvesse uma identidade entre natureza e liberdade. Com Malick, a natureza não só emociona, mas também colabora para a própria narrativa.

Intermediadas por música clássica, as falas são curtas, mas contundentes ao expressar os sentimentos e conflitos de cada personagem. É como se Malick quisesse que cada combinação de fotografia e música dissesse mais que as próprias falas. Ben Affleck é de longe o mais calado dos personagens, como se tivesse dificuldade em entender o que sente, diferentemente de Marina ou Jane. O padre Quintana tampouco parece compreender seu conflito interno, mas aparentemente está mais disposto a fazê-lo através dos questionamentos que empreende.

O que pode dificultar uma maior aceitação de Malick é que o americano é corajoso o suficiente para fugir das fórmulas manjadas, mas está num mercado dominado por elas. Para quem não se deixar levar pela procissão de insinuações visuais com as quais Malick conta sua história e seu estilo poético e dramático, as quase duas horas de “Amor Pleno” podem ser uma experiência traumática. É possível que o espectador menos “empenhado” se sinta cansado após a sucessão de cenas de “dramalhão” intenso, que podem parecer injustificadas. Para quem estiver disposto, porém, o filme será um prato (bem) cheio.

 

 

 

 

 

Fonte: Uol  - SP - Mariana Pasini -*Colaborou Mário Barra

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