Manaus pode estar entre primeiras cidades do mundo a alcançar ‘imunidade coletiva’

“Cientistas da USP, no Brasil, e da Escócia, acreditam que a doença tenha perdido força na capital amazonense, já que o vírus não consegue encontrar pessoas vulneráveis o suficiente para manter altos índices da epidemia”

O pior já pode realmente ter passado e Manaus pode estar em um seleto grupos de cidades no mundo a ter alcançado a chamada ‘imunidade coletiva’ para a Covid-19, quando o vírus não consegue mais se espalhar entre as pessoas, já que não há mais possíveis vítimas desprotegidas para sustentar o contágio em massa. É o que defende a biomatemática portuguesa Gabriela Gomes, da Universidade de Strathclyde, na Escócia, conforme divulgado na manhã de hoje (21), por O GLOBO.

Gabriela, junto com um grupo de epidemiologistas liderados por ela, defendem, desde março, que o limiar da imunidade coletiva para o novo coronavírus é de 20%, bem menor do que os 70%, comumente indicado em modelos tradicionais. Segundo a biomatemática, essa porcentagem necessária para a imunização coletiva varia de local para local. “A imunidade coletiva é modulada pelo distanciamento social. Não se pode olhar um país como um todo e cada região dele terá um limiar”, disse.

No caso de Manaus, assim como em locais como Rio de Janeiro e São Paulo, o distanciamento social foi limitado ou baixo, sem o uso de rastreamento de contatos e, ainda assim, o número de novos casos caiu, o que seria, segundo Gabriela, sugestivo de imunidade coletiva.

“Só teremos imunidade coletiva ampla com vacina. Mas a força da pandemia já está reduzida em algumas partes do mundo, como na Europa e em parte da China. Também em regiões dos EUA e do Brasil, onde cada estado deve ser pensado como um país. Estamos mais próximos de voltar à normalidade. É importante que isso seja comunicado às pessoas”, destacou.

Em meados de abril, apenas um mês após a confirmação do primeiro caso em Manaus, o sistema de saúde local entrou em colapso. No fim de maio, quando a prefeitura da capital amazonense precisou abrir covas coletivas para sepultar as vítimas, o número de novos casos e óbitos diários atingiu o auge, com mais de 100 sepultamentos em média por dia e, a partir desse momento, começou a cair.

Pico da pandemia foi marcada pela abertura de valas coletivas em cemitérios de Manaus. Foto: Sandro Pereira

Apesar das possíveis ‘boas novas’, Gabriela alerta para que os indícios de uma imunidade coletiva em cidades como Manaus não orientem políticas de governo. Conforme ela, trata-se apenas de um indicador de tendência da pandemia, ressaltando que países que foram bastante afetados pela pandemia, entre eles o Brasil, não possuem mais do que 10% da população infectada, o que faz com que número de vulneráveis seja imenso pelo resto do território nacional.

Pesquisadores discutem se tal imunidade foi de fato alcançada e quanto tempo vai durar, já que não se sabe a quão prolongada é a defesa adquirida contra o coronavírus. Além disso, mesmo com imunidade coletiva, muitas pessoas ainda podem morrer de Covid-19. Continua a haver casos, porém, em menor quantidade.

Outro integrante do grupo de Gabriela, o doutorando do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB/USP), Rodrigo Corder, explica que a imunidade coletiva não é o momento em que a infecção acaba, mas, sim, quando ela passa a se espalhar mais devagar.

“Mesmo quando é atingida, o distanciamento social e a máscara são necessários para que continue a reduzir efetivamente e não tenhamos uma subida de casos. Enquanto não temos vacina, o melhor cenário é interromper a transmissão dessa forma.

No Brasil especificamente, outra possibilidade é que a doença agora se propague mais entre os jovens, que saíram do distanciamento. Eles são infectados, mas raramente adoecem com gravidade e, como a testagem é baixíssima no país, esses casos não são notificados.

FVS pede cautela

No início do mês, A Crítica publicou que, apesar do otimismo de pesquisadores, a Fundação de Vigilância em Saúde pede cautela com teorias de imunização coletiva. Conforme  Rosemary Pinto, diretora da FVS, não é possível afirmar que o Amazonas tenha adquirido a imunidade coletiva ou a imunidade de rebanho. Para Rosemary , ainda há suscetibilidade ao novo coronavírus no Amazonas, no Brasil e no Mundo, por que ainda há circulação viral em ambientes e o risco de contaminação persistirá enquanto não houver a disponibilidade de um tratamento ou uma vacina eficaz.

Rosemary Pinto, diretora-presidente da FVS, pede cautela com teorias de imunidade coletiva. Foto: Divulgação

“A cada instante temos acesso a mais informações de pesquisas sobre taxa de suscetíveis e imunidade rebanho, mas a verdade é que estamos diante de uma doença nova e precisamos ter cautela em qualquer afirmação. O certo é que a imunidade de rebanho é alcançada quando há vacinação em massa, mas até o momento isso, não aconteceu em nenhum lugar do mundo”, salientou.

 

Fonte acritica.com

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