A marca do seu celular pode ser usada para negar um empréstimo?

Pode parecer “papo de vendedor”, mas é verdade: a marca de celular que você usa pode ser usada por lojistas para definir se você pode ou não abrir crediário em uma loja. Isso porque uma pesquisa recente revelou que há diversos indícios que a marca do celular que você usa pode ajudar a definir se você é uma pessoa que paga as contas em dia ou que costuma dar calote.

A constatação foi feita por um estudo recente do The National Bureau of Economic Research, uma organização privada sem fins lucrativos dos Estados Unidos, que analisou detalhadamente todas as compras efetuadas em uma loja online de móveis da Alemanha entre os anos de 2015 e 2016. A loja foi escolhida a dedo pelos pesquisadores por ser de um setor que pega clientes de todas as camadas econômicas da sociedade e também por fazer vendas à prazo.

Ao todo foram analisada 270 mil compras online feitas no site, que verificaram o tipo de dispositivo que a pessoa usava para efetuar a transação (celular, computador, etc), o sistema operacional do dispositivo (iOS, Android, Windows, etc), a maneira como os clientes chegaram ao site (pesquisa no Google, clique em anúncio de redes sociais, acesso direto pela URL, etc), a hora em que o site foi acessado e qual o provedor de e-mail usado no cadastro do cliente.

É importante citar que, em nenhum momento, os pesquisadores acessaram dados sobre se esses clientes já haviam tido algum pedido de abertura de crediário negado no passado pela mesma loja. A intenção era descobrir se, a partir de dados “banais” como a marca do celular do usuário, era possível criar uma previsão de inadimplência tão boa quanto a da tabela Fico (usada nos Estados Unidos para definir se um cliente tem potencial para dar calote na loja ou se ele é alguém em dia com seus pagamentos).

De acordo com a pesquisa, é possível revelar se uma pessoa vai ser um bom cliente ou não apenas olhando para o telefone que ela está usando, pois aqueles que possuem um iPhone (ou qualquer dispositivo que utiliza o sistema iOS) têm maior chance de pagar suas contas em dia do que aqueles que possuem um smartphone Android. Essa descoberta é facilmente explicado pelo resultado de pesquisas passadas, que mostram que ser dono de um iPhone é um bom indicativo de que o cliente faz parte dos 25% mais ricos do país, o que diminui bastante a chance de tomar um calote por falta de dinheiro.

Outra descoberta interessante é a de que pessoas que fazem compras a partir de um computador pessoal têm muito mais chances de pagar suas contas em dia do que aquelas que efetuam as compras a partir de um smartphone. Outro fator indicativo de inadimplência estava também no e-mail usado: usuários que utilizam serviços de e-mail desatualizados, como Hotmail e Yahoo, também têm mais chances de serem inadimplentes.

O modo como o cliente chega ao site também serve de indício da possível inadimplência dele: alguém que chegou à loja através de um site de comparação de preços tem bem menos chances de ser inadimplente do que alguém que clicou em um anúncio segmentado nas redes sociais e acabou comprando o produto. A explicação dada pela organização é de que clientes que costumam pesquisar pelo melhor preço são mais responsáveis com suas finanças do que aqueles que compram algo por impulso enquanto estão navegando nas redes sociais.

Implicações sérias

Para Tobias Berg, um dos autores do estudo e professor associado da Faculdade de Finanças e Gestão da Universidade de Frankfurt (Alemanha), as implicações desta pesquisa podem ser sérias para o consumidor. Isso porque na Alemanha (mas provavelmente o mesmo pode ser dito de qualquer região do mundo) os consumidores não fazem ideia que esse tipo de informação pode ser usada para decidir se eles conseguirão abrir crediário em uma loja ou conseguir empréstimos bancários.

Berg afirma que, ainda que isso seja explicado nos termos dos contratos dos varejistas, quase ninguém lê esses termos, e mesmo quem lê não consegue compreender realmente a significância daquilo que está implícito no contrato.

Ele alerta ainda para os riscos que esse tipo de catalogação pode significar para os lojistas, pois é possível que golpistas passem a falsificar suas pegadas digitais, fazendo com que lojistas e instituições bancárias os classifiquem como bons clientes em potencial e cedendo crediários e empréstimos que nunca serão pagos.

Assim, Berg afirma que, ainda que os dados de navegação possam ser usados para esse fim, ele não deve ser o único utilizado pelas lojas para definir a qualidade de um cliente.

Fonte: Wired / canaltech

Continue lendo