Tecnologia usada em satélites leva água potável para ribeirinhos no Amazonas

Com oração e fogos de artifício, ribeirinhos da comunidade Vila Darcy, em Maués, comemoraram a chegada de ‘água boa’ nas torneiras de casa

Até duas semanas atrás, os habitantes da comunidade Vila Darcy tiravam água do rio para beber, tomar banho e fazer comida, alternando com água da chuva. Na última terça-feira (22), os moradores do local, situado às margens do Rio Parauari, em Maués (distante 750 quilômetros de Manaus), estrearam dez placas de energia solar responsáveis por abastecer com água potável pelo menos 42 casas de famílias ribeirinhas, moradoras da Floresta Estadual de Maués, uma Unidade de Conservação do Amazonas.

A energia limpa que move os satélites desde 1960 foi escolhida pelo programa “Água + Acesso” – realizado pela Fundação Sustentável do Amazonas (FAS) e o Instituto Coca-Cola Brasil – como um dos três modelos utilizados para levar água potável a 15 comunidades da Amazônia, que são atendidas pelo projeto desde 2017. No Amazonas, o programa viabilizou acesso e tratamento de água para consumo para 3.733 pessoas de 30 comunidades ribeirinhas em nove municípios.

Comemorada pelos mais de 80 comunitários com fogos de artifício em meio ao entardecer, a inauguração interrompeu o torneio de futebol que agitava o campo em frente às placas. A solenidade durou menos de 15 minutos, um suspiro comparado aos dois meses em que a comunidade trabalhou para erguer a estrutura que capta, armazena e distribui água em uma rede com mais de 600 metros quadrados de encanamento.

Além das principais caixas d’água com mais de 2 mil litros, cada família construiu um suporte para armazenar água potável no quintal de casa. “É a contrapartida. Eles entram com a tecnologia, nós entramos com a sabedoria popular”, afirma Ronaldo da Silva, presidente da comunidade. Aplausos após o discurso final sinalizaram a aprovação da fala da liderança.

Com mais de R$ 620 mil investidos pelo Instituto Coca-Cola Brasil, o programa Água + Acesso já beneficiou mais de duas mil pessoas em dois anos de atuação. Gerido pela FAS, o investimento multiplica a qualidade de vida em áreas de proteção em Unidades de Conservação (UC’s). “Antes caminhava com três baldes de água cheinhos que pegava no rio. Só assim para sobreviver”, conta Maria Barbosa, que em duas décadas colocou o balde em um dos ombros mais de 14 mil vezes, considerando duas viagens ao dia.

Alívio

Maior aliado dos ribeirinhos das últimas quatro décadas, o uso constante do balde na Vila está com os dias contados, assim como a falta de água encanada nas casas. A previsão é que nos próximos quinze dias todas as famílias terminem a implementação das torneiras. Concluindo a etapa final, só resta manter em funcionamento o histórico feito, ao custo médio de R$ 8 por mês, que é destinado à manutenção das placas em caso de imprevistos.

“Foi duro, mas o sonho foi realizado. Trabalhei pintando e colocando as madeiras para as caixas de água e só de pensar que não vou mais tirar água do rio pra beber, me dá um alívio”, conta o agricultor João da Silva.

O professor Marcílio Dias aponta que durante as aulas de ciências e biologia, os alunos ficavam confusos quando o conteúdo falava sobre a qualidade da água que deveria ser consumida.

“Explicar que é direito do ser humano ter acesso à água e nós aqui, não ter esse direito de verdade, me colocou em uma situação nada boa. Os alunos começaram a questionar com mais frequência nos últimos meses”, disse ele, que é professor de todas as matérias do currículo escolar e ministra aulas para 140 crianças de Vila Darcy, além de outras cinco comunidades próximas.

Em Vila Darcy a maioria dos habitantes trabalham em plantações de guaraná. A comercialização do fruto gera renda para mais de mil famílias diretamente. No calor de em média de 40ºC nas plantações, agricultores bebem água “coada” em uma toalha, isso quando não entram floresta à dentro à procura de um olho d’água. “Agora a gente leva água que chega na torneira pra tomar na roça”, explica o produtor de guaraná Erivan Costa.

No país, a parcela da população sem acesso à água ultrapassa os 20%. Nas grandes cidades 68% da água que chega até a torneira é desperdiçada, de acordo com o Instituto Trata Brasil. O contraste traduz o retrato da realidade dos ribeirinhos de Vila Darcy. “Cada família que estiver desperdiçando água vai pagar uma multa de R$ 20”, afirma Jousanate Faria, coordenadora da FAS que atua nas comunidades ribeirinhas.

Sistemas de abastecimento

O movimento que leva água para ribeirinhos da Amazônia oferece três modelos básicos de abastecimento. O sistema de captação direta do rio; o sistema de poço artesiano e tratamento ultraviola (UVB) e o sistema híbrido de captação e tratamento UVB, que é o caso da comunidade Vila Darcy. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, distante 30 quilômetros de Manaus, por exemplo, é de poço artesiano cuja bomba é alimentada por energia solar e a água disponibilizada recebe tratamento com luz ultravioleta, o que livra a água de contaminação microbiológica.

Em Catuá Ipixuna foi testada uma tecnologia para purificação de água que trata até 400 litros de água por hora utilizando energia solar e bateria, desinfetando água contaminada por germes de rios, lagos e igarapés, através da radiação ultravioleta tipo C, evitando doenças como diarreia e Hepatite A. Da capital até a Reserva são 340 quilômetros.

Nas comunidades da RDS Piagaçu Purus, distante 50 quilômetros de Manaus, foram implantados poços artesianos de uso comunitário complementados por rede de distribuição de água, o que possibilita a disponibilidade permanente de água, mesmo durante o período de seca, além de evitar o consumo direto da água dos mananciais superficiais.

Retrato brasileiro

Só em 2017, a Região Norte apresentou 44.984 casos de internações associadas à falta de saneamento, que resultaram em 198 óbitos, sendo 30 deles de crianças abaixo dos 4 anos. O estudo foi publicado pelo Painel Saneamento Brasil.

O país apresenta um sistema de saneamento básico extremamente precário, cerca de 35 milhões de brasileiros não têm acesso à água tratada, mais de 100 milhões sem coleta dos esgotos, somente 45% dos esgotos são tratados e 38% da água potável é perdida nos sistemas de distribuição.

Hoje, a cobertura de água e esgotamento no Norte é a mais baixas do Brasil. Apenas 57,3% de toda população nortista apresenta acesso à água, 10,2% tem coleta de esgoto e apenas 17,4% dos esgotos são tratados, agredindo o imenso bioma amazônico e colocando em risco o meio ambiente da região. Fora tudo isso, as perdas de água chegam a 55,1% de acordo com o Instituto Trata Brasil.

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Na última semana, o governador Wilson Lima anunciou que vai garantir nos próximos dois anos investimentos para atingir 100% de abastecimento de água potável em Maués. O governo espera beneficiar mais de quatro mil famílias do município. O anúncio foi feito durante a inauguração da Lagoa da Maresia, uma das áreas beneficiadas no pacote de obras do Programa de Saneamento Integrado de Maués (ProsaiMaués).

Água + Acesso

A aliança Água + Acesso existe desde 2017 e reúne 15 organizações. Ela atua basicamente apresentando e implantando soluções de modelos autossustentáveis em mais de 241 comunidades localizadas em áreas rurais de 8 estados no país. Liderado pelo Instituto Coca-Cola Brasil, o programa já beneficia mais de 77 mil pessoas. Além do Instituto Coca-Cola Brasil, integram a iniciativa o Instituto Iguá, a Fundação Avina, a World-Transforming Technologies (WTT) e o Instituto Trata Brasil, como organizações de apoio, além de nove organizações sociais com ampla atuação em comunidades nas regiões atendidas: SISAR-CE, SISAR PI, Central de Associações (BA) Projeto Saúde e Alegria (PA), Fundação Amazonas Sustentável (AM), Cáritas de Pesqueira (PE), ABES-ES, ASPROC (AM) e CPCD (MG).

Até dezembro de 2019, a meta do programa é impactar 3 novas comunidades do município de Maués com sistemas de abastecimento e tratamento de água, beneficiando diretamente 100 novas famílias e cerca de 500 pessoas nestas comunidades.

http://www.acritica.com

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